

Em meados de abril, a Bud Light enviou umas cervejas personalizadas à influencer transgénero Dylan Mulvaney. Mulvaney publicou um vídeo em forma de agradecimento e brindou ao seu primeiro ano como mulher:
O que à primeira vista pode parecer inócuo foi extremamente polémico, tendo sido comentado por várias personalidades. Por exemplo, Ben Shapiro, comentador norte-americano, assinalou a situação dizendo: “Bem, amigos, a nossa cultura decidiu que os homens são mulheres e as mulheres são homens e que temos de ser obrigados a consumir produtos que assim o digam”.
E as reações foram extremas, apelando mesmo a um boicote da marca. Por exemplo, Travis Tritt baniu a Bud Light do seu tour. E Kid Rock fez… isto:
O valor das ações da Anheuser-Busch InBev, empresa mãe da Bud Light, foi impactado. As vendas de Budweiser baixaram. E, no dia 13 de abril, a empresa recebeu mesmo ameaças de que bombas tinham sido colocadas nos seus edifícios. Dada a magnitude da situação, a diretora de marketing da Bud Light acabou mesmo por deixar a empresa.
🎯 As intenções não são tudo. O CEO da Anheuser-Busch InBev, veio a público dizer: “nunca tivemos a intenção de ser parte de uma discussão que divide as pessoas: estamos no negócio de juntar as pessoas através da cerveja.” Mas a verdade é que qualquer ação de uma marca será alvo de interpretação. E todas as associações que a marca faz, vão ser julgadas na praça pública que são as redes sociais. Para além das intenções, lembre-se também das possíveis interpretações.
🎯 Apoiar valores sociais é cada vez mais divisório. E talvez seja por isso que a sustentabilidade é uma preocupação cada vez mais assumida pelas marcas. Em vez de se focarem em potenciais divisões, focam-se numa área onde a maior parte da população está de acordo. Porque nunca nos devemos esquecer que o ato de consumir uma marca está ligado à perceção que o consumidor tem de si mesmo. Se os valores da marca não estão em linha com os do consumidor, provavelmente procurará outras opções.
🎯 O contexto socio-cultural é chave. Se uma das principais marcas de cerveja portuguesa tivesse feito uma ação semelhante com uma celebridade trans, será que a polémica seria desta dimensão? Os Estados Unidos não são Portugal e as reações a uma ação deste género talvez fossem completamente distintas. A mesma ação em contextos diferentes pode gerar reações diferentes. Por isso, em vez de tirar uma conclusão em absoluto, leia a sala e tente prever a reação tendo isso em conta.
🎯 Será que isto nos ensina que falar em temas divisórios é algo que não se deve fazer? Na nossa opinião, não. Tudo depende da marca, do público-alvo, da visão, do posicionamento que queiramos. Há uns anos, a Nike criou uma campanha que dividiu a sociedade à volta do tema do racismo e assumiu que não se importava de perder consumidores que não se revissem com esses valores. Até pode ter perdido uma parte do mercado, mas provavelmente ganhou na fidelização daquele que é o seu principal público-alvo. Defina aquilo em que acredita como marca (não confunda com as suas opiniões pessoais, enquanto diretor de marketing ou brand manager), analise os riscos e se estiver diposto a arcar com as consequências avance. Se for para acabar por pedir desculpa por algo em que acredita para não perder clientes, mais valia não ter feito nada em primeiro lugar.
Antes de começarmos, veja a peça por si mesmo. Reconhece a marca?

Se viu Doritos… viu bem. Porque quando o snack laranja é tudo o que precisa para que as pessoas pensem na marca, o anúncio está feito. E a marca remata com uma pergunta pertinente: “um anúncio sem logo é um anúncio?”
O QR Code direcionava para este vídeo:
Esta forma de reforçar a iconicidade do produto deu o pontapé de saída para uma conversa nas redes sociais. Com pessoas que colocavam outras questões pertinentes como por exemplo: “uma mãe que não te prepara tupperwares continua a ser uma mãe?” ou “um catalão que deixa gorjeta continua a ser catalão?” ou “um político que não mente continua a ser um político?”.
🎯 “Menos é mais”. Já todos lemos esta regra antes, mas neste caso parece encaixar que nem uma luva. Esta campanha é tão simples que nem precisa de um logo. E isso reflete a autenticidade e originalidade de uma marca que tanto tenta perpetuar esses valores, para além de a catapultar para outro patamar como A marca do setor.
🎯 Envolva a comunidade nas suas campanhas. Um anúncio num billboard podia marcar o início e o fim de uma campanha. Mas a Doritos desafiou os fãs a pensarem noutros exemplos semelhantes, transportando a conversa para as redes sociais. Lembre-se que a comunicação já não tem de ser unidirecional e tornar o contacto com a sua marca mais rico vai melhorar a relação com os seus fãs.







