

Se tens acompanhado o Mundial de Futebol de 2026, é impossível não teres reparado num detalhe: parece que alguém lavou os equipamentos de todas as seleções com uma meia vermelha misturada. O relvado está literalmente inundado de chuteiras cor-de-rosa choque (ou electric fuchsia, para quem quer ser mais fancy).

Qual foi o raciocínio das grandes marcas de desporto (Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers)? A lógica de design e os relatórios de dados disseram-lhes que, num mar verde (o relvado), a cor que gera o maior contraste visual e que salta imediatamente à vista nas transmissões televisivas é o rosa. A intenção era inegável: “vamos usar esta cor para que os nossos atletas se destaquem”.
O problema? Todas as marcas leram exatamente o mesmo memo. Todas consultaram os mesmos dados de visibilidade e tendências. E todas executaram a mesmíssima estratégia em simultâneo.
O resultado foi um “tiro no pé” coletivo. O que era suposto ser um golpe de génio para gerar destaque para cada marca isoladamente, transformou-se num uniforme confuso. Ao tentar sobressair a todo o custo de forma puramente analítica, as marcas perderam a sua identidade e acabaram a camuflar-se umas nas outras. Na televisão, já ninguém sabe distinguir quem calça Nike, Adidas, Puma ou outra marca qualquer.
🎯 O paradoxo da disrupção. Se toda a gente na tua indústria usa exatamente a mesma tática (baseada nos mesmos dados) para ser “disruptiva”, a tática passa a ser a norma. A verdadeira diferenciação exige a coragem de não seguir o rebanho.
🎯 Dados vs. criatividade. Os dados dizem-te: “rosa contrasta com verde”. O pensamento criativo de uma marca devia perguntar: “certo, mas o que é que vai contrastar com o rosa da nossa concorrência?”.
🎯 Diferenciação real. Ser diferente não é apenas sobre gritar mais alto ou usar a cor mais fluorescente do pantone. Quando o produto acaba por ficar idêntico ao do rival, a única salvação é ter uma identidade de marca irreplicável.
Durante anos, a internet esteve inundada de “hacks” de beleza. Mais de 3,5 milhões de posts mostram pessoas a usar a clássica geleia da Vaseline para coisas que a marca nunca imaginou: fixar sobrancelhas, criar iluminadores de rosto ou prolongar o cheiro do perfume.
Em vez de ignorar estas tendências ou apenas lançar campanhas a dizer “nós sabemos que vocês fazem isto”, a Vaseline deu o passo que falta a muitas marcas: transformou os hacks criados pelos consumidores em produtos reais e deu-lhes o crédito.
A campanha “Vaseline Originals” foi à procura das primeiras criadoras de conteúdo que inventaram estas modas, como Jen Chae e Lauren Luke, que partilharam estes truques no YouTube e em blogs beeeem lá atrás, no ido ano de 2008. A marca pegou nas suas ideias, levou-as para o laboratório e lançou uma linha oficial de produtos (Brow Tamer e All-In-One Primer & Highlighter), colocando as criadoras no centro do lançamento.
Resultado? Os produtos esgotaram em minutos no TikTok Shop.

Numa altura em que as marcas gastam fortunas em I&D (Investigação e Desenvolvimento) a tentar adivinhar o que a Geração Z quer comprar, a Vaseline percebeu que as melhores ideias não estavam nas salas de reuniões da empresa, mas sim nos quartos dos seus próprios clientes.
🎯 Inovação liderada pela comunidade. Os teus clientes já estão a usar o teu produto de formas que tu não previste. Observa o comportamento deles e transforma esses usos "alternativos" em novas linhas de negócio.
🎯 Da validação à cocriação. É ótimo quando uma marca reconhece uma tendência do TikTok. Mas é brilhante quando a marca partilha o sucesso comercial e o palco com os criadores originais que iniciaram essa mesma tendência.
🎯 Dar o devido crédito. Em vez de roubar a ideia de forma corporativa, a Vaseline elevou o status destas mulheres a "Originals". O nível de lealdade e confiança que isto gera na comunidade é impagável.

Estás por aqui? Então mereces a nossa total solidariedade: também fazes parte da metade da equipa que (ainda) não está na praia!! 😅