


Esta é a terceira e última parte da entrevista a Tiago Santos, General Manager de General Manager da Danone na Bielorrússia, Cazaquistão, Cáucaso e Ásia Central.
Falamos com um profissional com 24 anos de carreira e que, para além de ser General Manager de 9 países, já teve cargos como Diretor de Marketing, Vice Presidente de Marketing Global, Marketing Manager e Brand Manager em marcas como a Danone, Pepsico, Lay’s ou Martini em que vão da Europa Ocidental à Oriental, da América Latina a África.
Pode ler a primeira e segunda parte da entrevista nos links abaixo:
· Parte 1: marketing em tempos de guerra.
· Parte 2: marketing e liderança pelo mundo.
Nota Prévia: a entrevista dada por Tiago Santos reflete opiniões unicamente pessoais e não uma posição institucional ou opiniões corroboradas pela empresa.
Uma coisa que te ensinam na Procter & Gamble é que a diferença entre um marketer ok e um grande marketer é a capacidade de identificar real consumer insights. E eles definem real consumer insights como uma coisa que tu enquanto consumidor pensas: “uau, estes tipos sabem isto sobre mim... pensava que ninguém sabia isto”.
Um accepted consumer believe é diferente: “eles sabem isto sobre mim, mas toda a gente sabe e eu sei que toda a gente sabe”. Esta capacidade de caçar insights é o que te permite ser homem e trabalhar em Tampax ou ser mulher e trabalhar em Gillette. Portanto, quando as pessoas me dizem que não podes trabalhar em higiene feminina, ou na China... Eu posso trabalhar onde quer que seja.
Quando era mais novo precisava de perceber muito melhor as dinâmicas de consumidor através de visitas, shop alone, in home visits, fosse o que fosse... Mas hoje, com a experiência, tu chegas, olhas para certas pesquisas estruturantes, entendes o que é que os consumidores têm em comum e não têm, qual é o poder de compra, qual é o crescimento da categoria, se a categoria é madura ou não, se é essencial ou não, quais as marcas-chave, se tens uma posição de liderança ou não...
Depois, basicamente, o que tens de perceber em cada mercado é: vais entrar numa guerra de categoria, ou seja, vais crescer porque a categoria de produtos em que te inseres está a crescer? Ou numa numa guerra de share, em que tens de ganhar quota de mercado, porque a categoria já não cresce?
E, em função disso, tens de responder à pergunta: como é que vais ganhar? Esta abordagem é comum a todos os mercados.
Obviamente que se me disseres que mercados desenvolvidos e em desenvolvimento têm diferenças... sim, claro que têm. E mesmo Espanha e Finlândia, que são dois mercados desenvolvidos e com um per capita alto, também têm muito mais diferenças do que semelhanças. Na Espanha, a Danone é quase uma religião, mas na Finlândia é número 2 num país em que a marca líder tem 80% de quota de mercado. Na Finlândia a Danone tem só 15 ou 20 anos. Quando entras na Finlândia, eles gostam das culturas locais, dos produtos locais, gostam de low e no-lactose... É preciso adaptares-te a isso, claro.
Há algumas coisas que analisamos sempre. Per capita e effort level, por exemplo, que analisa se é caro comprar iogurtes ou não. Se comprares um iogurte por dia por cada membro da família média versus o rendimento médio, que nível de esforço é que representa naquele país? Nós sabemos que quando passas de 1% tens um problema. Quando passas de 10% não tens hipótese. Se juntares a isto a essencialidade da categoria, tens uma análise muito clara da oportunidade que há no mercado.
Por exemplo, no Cazaquistão a categoria em que nos inserimos, que é modern dairy, não é importante. O importante é leite, kefir, baked milk... Aqui, iogurtes são uma coisa nova. Portanto analisando estes dois aspetos tens logo uma boa base para definires o que há a fazer.
É isso. Quando estive a trabalhar Danonino, fizemos uma campanha global de categoria que era giríssima, mas na Rússia chamaram-nos logo a atenção: “o quê, um miúdo a brincar nos baloiços sozinho? Onde é que está a mãe? E a baby-sitter? E a avó? Isso são maus-tratos infantis...” Então gravámos um filme específico para lá. Esse filme, para nós, equipa central, também era estranho culturalmente. Mas funcionou. Isso ensinou-me a importância de, trabalhando uma marca global, ir aos mercados-chave e ver o que é que é marca, ver o que é a cultura, conhecer os valores dominantes, os valores ascendentes e os que estão a morrer, perceber o que é que a marca representa e ver como é que vais vender a marca. Aprender a ouvir os consumidores e as equipas é essencial.
O Embaixadores Triber é um projeto para estudantes que gostem da área de marketing e que querem aprender mais sobre a área. Os candidatos selecionados recebem formações gratuitas dadas pelos profissionais da Triber e são expostos a desafios reais de empresas para aplicarem o seu conhecimento na prática.
O primeiro é que pensem nos primeiros anos da carreira, porque eles são chave. Portanto, nesses primeiros anos, ou ganham dinheiro, ou aprendem, ou ambos. Mas não se metam partir pedra porque é bom e porque vai dar currículo... Ser Excel Manager, Admin Manager, Júnior Auditor a fazer contagem de inventário, esqueçam.
O segundo é que, hoje em dia, com tudo o que é cripto, web3, com todo o capital que existe, acho que nos primeiros se pode arriscar muito. Criar um negócio próprio, trabalhar em venture capital... Eu nunca fiz isso porque não fui capaz e porque quando fui para a agência não correu bem, mas se voltasse ao princípio ia para high earning industries (private equity, investment banking, consultoria) ou montar alguma coisa minha.
Com a disponibilidade de capital que há hoje, a internacionalidade que tens hoje em dia, com tudo o que é cripto, web3 a aparecer, o valor que pode ter o brainpower é imenso. Hoje, podes montar o que tu quiseres sentado em Coimbra, na Nigéria, onde for.
Depois, é preciso perceber o caminho que queremos para nós. Eu criaria algo meu ou, começando a trabalhar em alguma empresa, preferia ser junior analyst numa VC do que ser auditor júnior na Deloitte, porque isso me ia ensinar as bases de análise de negócios e captação de investimento que poderiam ser úteis em tantas áreas, no futuro.
Se escolhesse um caminho mais corporate, continuo a achar que as melhores escolas de marketing são a Unilever e a Procter & Gamble e que sair de Portugal é essencial ao princípio, porque o mercado é demasiado pequeno para se aprender. No mínimo, Madrid.
E, depois, nos primeiros anos, é preciso pensar no futuro: onde é que quero estar daqui a 5 ou 6 anos? Então que experiências-chave é que deveria ter daqui até lá? Para que empresas é que quero ir? Depois é ir preenchendo as checklists o máximo possível. Claro que é preciso manter a flexibilidade, mas a coisa de começar e depois andar a sair porque dão mais 20% aqui ou 15% acolá... acho que não faz sentido.
Gostou desta entrevista? Pode ler a primeira e segunda parte da mesma

nos links abaixo: